(...)
“Sua mãe era dócil, afetiva, generosa, mas seu pai,
Bartolomeu Fontes, nunca esteve preparado para ter filhos. Era insensível,
impulsivo, violento e ainda por cima alcoólatra. Jamais o abraçou, jamais o
beijou nem lhe contou histórias.
Espancou mais de dez vezes o menino. Dava-lhe surra com
qualquer objeto que encontrava fios de ferro, vassouras, tapete de banheiro. O
pequeno Bartolomeu conheceu a dor da rejeição mais do que os que foram
excluídos pela cor, raça, sexo, religião.
- Você é uma decepção – dizia o pai algumas vezes. – Não sei
por que esse menino nasceu – dizia outras.
Quando bebia delirava, criava ideias falsas, mas acreditava
nelas. Acusava sua mulher de traição. Quebrava tudo em casa. Bartolomeu, embora
fosse uma criança, tentava protegê-lada violência dele. Empurrando o pai, uma
vez quebrou seu braço direito. Duas vezes quebrou o nariz e sangrou muito.
Anna jamais denunciou seu marido. Primeiro porque tinha medo
de que ele fosse preso e, como ela apenas exercia trabalhos temporários, achava
que o pequeno Bartolomeu passaria fome.
Segundo, porque era uma imigrante ilegal. Tinha medo de que,
se fizesse uma denúncia, seriam deportados para seu país de origem, uma favela
sem condições mínimas de sobrevivência, com esgoto a céu aberto, sem luz e água
encanada. Nesse lugar, um terço das crianças morria no primeiro ano de vida. Os
países que recebiam imigrantes sugavam-lhes o sangue e os tratavam sem
dignidade, sem direitos mínimos, mas, apesar disso, o ambiente era melhor que o
lugar de onde vieram. Terceiro, porque não tinha amigos nem parentes onde
morava.
A violência doméstica contra as crianças e as mulheres era
mais frequente do que se imaginava, mesmo em países desenvolvidos, mas alguns
governos fechavam seus olhos para esse gravíssimo problema. O marido de Anna a
isolou da sociedade. Era uma escrava vivendo em sociedade livre. Entre a cruz e
a espada, Anna preferiu se calar. Pagou um preço caríssimo. Sacrificou sua vida
e o futuro do pequeno Bartolomeu. O menino tinha pavor de seu pai.Não conheceu
guerras, nem precisava, viveu um dramático clima de violência numa sociedade
aparentemente livre.”
(...)
(Capitulo 2 págs 20-22)